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Artigo: Dr. David: A Construção da Nossa História em Supervisão

Dr. David: A Construção da Nossa História em Supervisão 1

Graciella Tomé 2 **
Márcia Tomasi 3 ***
Margareth Buratto 4 ****
Neila Amaral Machado 5 *****
Siana Pessin Cerri 6 ******

 

1 Trabalho apresentado na XX Jornada do Instituto Cyro Martins, em Porto Alegre, 2018.
** Psicóloga Clínica, Psicóloga do corpo clínico do Instituto Cyro Martins, Membro dos Seminários
Winnicott Porto Alegre.
*** Psicóloga Clínica, Psicóloga do corpo clínico do Instituto Cyro Martins, Especialista em supervisão
psicanalítica pelo CELG Porto Alegre.
**** Psicóloga e Psicoterapeuta, Formação em Psicoterapia pelo Instituto Cyro Martins, Terapeuta de casais
e família, Professora do curso e Aperfeiçoamento em Psicopedagogia do Instituto Cyro Martins (POA).
***** Psicóloga Psicoterapeuta, Formação em Psicoterapia pelo Instituto Cyro Martins (POA).
****** Psicóloga. Membro do Instituto da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre (SBPdePA).

 

 

Dr. David: A Construção da Nossa História em Supervisão

 

Resumo

Fomos um grupo de supervisão que teve a coordenação do Dr. David Zimerman. Somos um grupo que não se separou para não perdê-lo: dentro e fora de nós. Reverenciamos assim seu significado em nossas vidas. Utilizando um dos tantos ensinamentos dele, que se dizia um perguntador, e para podermos contar esta história de supervisão que ainda está viva, brilhante e pulsante dentro de nós, passamos a nos questionar sobre como fazer para transmitir. Transmitir para perpetuar. Perpetuar para homenagear. Constatamos que a escrita nos daria o que buscávamos: um nexo, um modo de registro. Durante este processo, encontramos em nossos cadernos uma das tantas referências de supervisão com ele. Ela versa sobre as capacidades necessárias a um terapeuta: ser continente, ter empatia e ser capaz de sobreviver a eventuais ataques de nossos pacientes. E, como terapeutas, aqui estamos nós, podendo observar e contar sobre essas capacidades, na qualidade de grupo de supervisão: – sim, fomos continentes, empáticas e sobrevivemos!

 

Palavras-chave:Supervisão Teórico-Clínica. ExperiênciaemGrupo. Vivência.

 

Abstract

We were a supervision group that had the coordination of Dr. David Zimerman. We are a group that didn’t separate so we wouldn’t lose him: inside and outside of us. We revere his meaning in our lives.Using his many teachings, as he considered himself a questioner, and to be able to tell this story of supervision that is still alive, bright and pulsating inside of us, we started to question ourselves how to transmit it. Transmit to perpetuate. Perpetuate to honor. We realized that writing would give us what we were looking for: a nexus, a way of recording. During this process, we found in our notebooks one of the many supervisory references of him. It is about the skills a therapist needs: being continent, empathetic and able to survive eventual attacks from
our patients. As therapists, here we are, being able to observe and tell about these capacities as a supervisory group: – yes, we were continent, empathic and we survived!

Keywords: Theoretical-Clinical Supervision. Group Experience. Experience.

 

Resumen

Fuimos un grupo de supervisión que tuvo la coordinacióndel Dr. David Zimerman. Somos un grupo que no se separó para no perderlo: dentro y fuera de nosotros. Reverenciamos asísu significado em nuestras vidas. Utilizando una de las tantas enseñanzas de él, que se decía um preguntador, y para poder contar esta historia de supervisión que aún está viva, brillante y pulsante dentro de nosotros, pasamos a cuestionarnos sobre como hacer para transmitir. Transmitir para perpetuar. Perpetuar para homenajear. Constatamos que la escritura nos daríalo que buscábamos: un nexo, un modo de registro. Durante este proceso, encontramos em nuestros cuadernos una de las tantas referencias de supervisión com él. Ella versa sobre las capacidades necesarias a un terapeuta: ser continente, tener empatía y ser capaz de sobrevivir a eventuales ataques de nuestros pacientes. Y, como terapeutas, aquí estamos nosotros, pudiendo
observar y contar sobre esas capacidades, encalidad de grupo de supervisión: – sí, fuimos continentes, empáticas y sobrevivimos!

Palabras clave: Supervisión Teórico-Clínica. Experienciaen Grupo. Experiencia.

 

Dr. e Psicanalista David Zimerman

Quem foi:

Formado em medicina pela UFRGS em 1954, alicerçou sua prática através de várias experiências desde a enfermaria da Santa Casa de Misericórdia de Porto alegre, a pediatria no Hospital da Criança Santo Antônio, bem como, como capitão-médico do Hospital Militar do Rio Grande do Sul. A especialização em psiquiatria ocorreu em 1964 na Clínica Pinel onde foi diretor-clínico por alguns anos. Trabalhou também com pacientes psiquiátricos crônicos em sua passagem pelo Hospital Psiquiátrico São Pedro. Sua formação psicanalítica foi realizada na Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA), onde se tornou membro associado em 1976, membro efetivo em 1987 e didata em 1990. Sua clínica particular sempre esteve como referência nos ambientes da  aprendizagem da psicoterapia e da psicanálise.

 

O que fez:

 

Dr. David exerceu diversas atividades no âmbito da psiquiatria e da psicanálise individual e grupal.Suas participações em congressos (nacionais e internacionais) lhe conferiram espaço de grande reconhecimento pelo seu saber. Desenvolveu contínua atividade no campo do ensino e como supervisor, além de compor obra científica significativa com publicações como:
– Fundamentos Básicos das Grupoterapias (1993);
– Bion: Da teoria à prática (1995);
– Como trabalhamos com Grupos (em conjunto com Luiz Carlos Osório – 1997);
– Fundamentos Psicanalíticos: teoria, técnica e clínica – uma abordagem didática
(1999);
– Vocabulário Contemporâneo de Psicanálise (2001);
– Manual de Técnica Psicanalítica: uma re-visão (2004);
– Psicanálise em Perguntas e Respostas (2005).

 

Em nível de publicações, Dr. David também fez incursões na área jurídica contribuindo em capítulos específicos no livro “Aspectos Psicológicos na Prática Jurídica” (2002). Em 2008, publica “Vivências de um Psicanalista”, onde convoca o leitor a compartilhar sua própria história de vida e de profissão num gesto de generosidade e de coragem que lhe foram definidoras.
Constam ainda em sua produção científica os livros:
– Os Quatro Vínculos: Amor, Ódio, Conhecimento e Reconhecimento (2010);
– Etimologia de Termos Psicanalíticos (2012).

 

Importância para o Movimento Psicanalítico:

Dr. David Zimerman foi e é, com efeito, um dos mais proeminentes pensadores da psicanálise do nosso país. Com uma sabedoria agregadora e atitude respeitosa e solidária é responsável por incontáveis seguidores que o admiram sempre. Sua obra literária é referência nas diversas instituições psicanalíticas e da psicoterapia. A partir dos seus ensinamentos a formação profissional pode ser dinâmica e límpida, num aprofundamento teórico capaz de englobar aspectos afetivos positivos também no trabalho clínico entre paciente/terapeuta. Uma importante trajetória.

 

Sobre o Trabalho e o Vínculo:

Entre diferenças e similaridades, nós, mulheres, psicólogas de formação, diferentes faixas etárias, com histórias de vida peculiares, reuníamo-nos regularmente no consultório do Dr. David onde a constância e a estabilidade deste supervisor que nos aguardava. A escuta por ele ofertada respeitava a individualidade e a trajetória de cada uma de nós,e também nossa unidade grupal.
Ao final de cada período de supervisão, a compreensão teórica e técnica que recebíamos proporcionavam alívio, entendimento e desejo por aprofundamento, além de crescimento e amadurecimento pessoal e profissional. Fortalecemos um vínculo necessário e esperado para trabalhar e aprender. Juntoao Dr. David vivenciamos a oportunidade de entender a geografia da mente.

 

Assim como o regente de uma orquestra que organiza sons e tons em diferentes escalas, para que uma sinfonia se construa nosso supervisor e “maestro” orquestrou conhecimentos diversos que nos harmonizaram. Fomos criando e construindo nossa música como autoras. Essa música que só a nós pertence! Em diversas tonalidades de compreensão, aprendemos com ele a proporção do que é dito, pudemos entender a importância da colocação das perguntas na clínica e qual o sentido que elas percorrem, ou reverberam, na mente do paciente. Bem como a ter um olhar de ternura e respeito empático. Fomos instigadas a compreender nossos diferentes pacientes sob vértices diversos, pensando e identificando personagens internos de cada um deles para que pudéssemos ser protagonistas e coadjuvantes nos momentos adequados. Como ele mesmo referia: “o paciente tem um registro, um mapa, um teatro do seu psiquismo.” Neste enredo próprio, que é a história do paciente, os personagens mais importantes que estão “dentro” dele se reproduzem na vida “lá fora”. Esses personagens internos podem ser reais ou fantasiados, o impacto no psiquismo é similar. O eco das suas palavras reverberam em nós, ao avaliarmos, inicialmente, um paciente. Ele nos dizia: “façam uma coluna dos pontos positivos e outra dos pontos
negativos desta pessoa. Este viés buscará integrar o “eu” do indivíduo que procura tratamento, uma vez que leva o terapeuta a não enfocar somente os sintomas do mesmo.
O terapeuta deve aliar-se com o lado sadio do paciente e ajudá-lo a crescer”. Vamos trazeralguns exemplos colocados, dentre tantos:

Quando o paciente está com dificuldades de crescer e amadurecer, o terapeuta pode pensar nas seguintes hipóteses: está fixado em um trauma, a existência de um vazio ou, talvez, apresente o que chamou de “complexo de imerecimento”. Definia trauma com a analogia das feridas não cicatrizadas. Como metáfora, dizia-nos que se derramássemos “iodo na mão veríamos que apenas coloria a pele, mas, que o mesmo iodo derramado em uma mão que está ferida provocaria intensa ardência…” Uma dor. O trabalho analítico buscaria ressignificar o trauma para cicatrizar a ferida para não sentir mais a dor, embora a marca da cicatriz permaneça em seu ser como registro. Outro conceito com o qual trabalhamos: “imantação do trauma”. Sendo o trauma uma ferida emocional que, quanto mais precoce, mais se fixa na mente, como um imã que atrai elementos específicos, o sujeito buscará no presente elementos que reproduzam por repetição o seu passado, o familiar, ainda que doloroso. O teatro do psiquismo encena repetidamente a peça que “decorou” até que possa fazer outras escolhas através da análise.

No que se refere a “patologia do vazio” trabalhou conosco a empatia para com o paciente no campo analítico Nos alertava quanto à importância da contratransferência, ao ouvirmos narrativas impregnadas de vazios, ou como ele mesmo chamava “buracos negros”. Quando as necessidades emocionais são preenchidas com prazer, inaugura-se o desejo a serviço de preencher a falta. Quando não preenchidas a contento, surge no lugar do desejo a demanda. Reforçava o cuidado que se deve ter para com estes pacientes pela tendência que eles têm de preencher o vazio com ilusão e idealização, inclusive do terapeuta. Os indivíduos, com seus desejos e comportamentos insaciáveis, nos dizem tão somente por quanto vazio existencial sofrem.
Foi maravilhoso poder aprender esta postura com o mestre.

No que se refere ao “complexo de imerecimento”, Dr. David salientava que “algumas pessoas carregam dentro de si um forte sentimento de que não merecem coisas boas”. Na vivência de sua prática clínica,contou que observou “pacientes que possuíam atributos que lhes permitiriam seremfelizes e bem sucedidos na vida. Entretanto, diante de sucessos, no lugar de vibrações e alegrias, pelo contrário, deprimiam-se, com ideias obsessivas, fixas, de que alguma tragédia iria acontecer”. Salientava a importância das perguntas reflexivas. São aquelas que levam a
pensar, a introduzir dúvidas para fazer frente às “verdades absolutas” vivenciadas pelos pacientes e que, muitas vezes, estão obedecendo aos mandos inconscientes da compulsão a repetição. Ele sempre dizia, que“quando alguns pacientes repetem efusivamente “eu tenho que”, sem a compreensão plena do motivo, possivelmente estaremos diante de uma pessoa que carrega um mandato, ou seja, o mandato da obediência a uma herança transgeracional”.

Dr. David dizia que é bastante comum que se faça uma sinonímia entre recordar como recordação e lembrar como lembrança. Porém, tais termos não são sinônimos, pelo menos, no que tange à práticade um tratamento psicanalítico, que esteja num momento em que paciente e analista estão entrando em contato com pulsões, sentimentos, ideias e ações que, de longa data, estejam reprimidas ou recalcadas. Esta colocação se justifica porque lembrar de algo pode não ser mais do que um processo fisiológico favorecido pela capacidade de memorizar e depois lembrar o que estava escondido. Diferentemente, recordar, conforme a sua etimologia, vem do prefixo latino re(de novo) + cordar, verbo que vem do latim cor, cordis, que quer dizer do coração.
Assim, na técnica analítica, cabe ao terapeuta reconhecer quando o paciente está simplesmente “desabafando”, sem evidência de sentimentos, enquanto que se ele estiver “re-cor-dando” o significado é muito mais profundo, porque o paciente está revivendo sentimentos de fatos relevantes em suas significações.

Repetia frequentemente, a importância terapêutica de sermos novos modelos de identificação para os pacientes. Para tal tivemos um excelente modelo: o dele próprio. Lembramo-nos das supervisões, as quais se embasavam nas vinhetas das sessões que transcrevíamos. Quando algumas intervenções não estavam tão adequadas ele nos dizia: “fostes bem, pois tudo vale a pena quando a alma não é pequena, mas vou dizer a vocês como eu faria”. E assim, esse generoso mestre ia nos exemplificando a verdade de ser um analista. Foi amoroso conosco, nos dava a oportunidade de errar e não nos constrangia jamais com isso, nem diante dele mesmo ou das demais colegas. Enfim, esses são alguns dos inúmeros ensinamentos de vida que compartilhamos com o Dr. David em nosso processo de supervisão, um contato que perdurou por vários anos.

Os ensinamentos foram de vida sim, pois, mais do que o contrato profissional que estabelecemos, firmamos um contrato afetivo que nos levou longe e profundamente nos elementos psicanalíticos do “existir”. Nossa relação com o Dr. David nos proporcionou a possibilidade de um novo modelo de identificação profissional e pessoal. Ele olhava para suas supervisionadas (nós mesmas) e refletia de volta a confiança para que pudéssemos crescer e nos desenvolver. E sim, nos escutava. E trocava conosco experiências. Seria impossível não “aprender” com ele.
A homenagem mais significativa nos parece ser o Grupo. Somos o reconhecimento dele por nós. Somos o resultado dele por nós, o produto, a prova viva dessa certeza e do seu saber.
Dr. David valorizava e empreendia trabalho teórico, técnico e terapêutico com grupos. A manutenção e permanência, deste grupo de supervisão, reverencia sua generosidade e tentamos transmitir, neste texto, o conhecimento, o carinho, a doação e o afeto de um homem de conhecimentos e humildade plenos.

Sua solidariedade está impressa em cada uma de nós, com histórias individuais e coletivas. Salientamos que as individuais sempre foram compartilhadas intragrupo, como deve ser para que se preservem as verdades que aproximam e fixam laços. Gratidão é a mais pura expressão da verdade que sentimos. E que, como ele mesmo salientou em um de muitos de seus livros, “Etimologia de Termos Psicanalíticos”: “gratidão provém do latim gratitude cujo significado designa uma qualidade de quem é grato, que tem reconhecimento de agradecimento por quem lhe prestou algum tipo de benefício” (Zimerman, 2012, p. 143). E como nos disse certa vez: “Gratidão é a memória do coração”. Sim, somos gratas, Dr. David, no reconhecimento do benefício que o contato pessoal com o senhor e os seus ensinamentos psicanalíticos nos proporcionaram. Esperamos que de forma alguma, o que criamos nestas linhas consiga não encerrar, mas sim perpetuar dentro de nós a experiência de ter convivido próximas a este Mestre, querido e amigo.

Obrigada sempre!

 

 

Referências

Zimerman, D. E. (1993). Fundamentos Básicos das Grupoterapias. Porto
Alegre: Artes Médicas.
Zimerman, D. E. (1995). Bion: Da teoria à prática. Porto Alegre: Artes Médicas.
Zimerman, D. E. (1999). Fundamentos Psicanalíticos: Teoria, técnica e clínica –
uma abordagem didática. Porto Alegre: Artes Médicas.
Zimerman, D. E. (2001). Vocabulário Contemporâneo de Psicanálise. Porto
Alegre: Artmed.
Zimerman, D. E. (2004). Manual de Técnica Psicanalítica: Uma re-visão. Porto
Alegre: Artmed.
Zimerman, D. E. (2005). Psicanálise em Perguntas e Respostas. Verdades,
Mitos e Tabus. Porto Alegre: Artmed.
Zimerman, D. E. (2008). Vivências de um Psicanalista. Porto Alegre: Artmed.
Zimerman, D. E. (2010). Os Quatro Vínculos: Amor, ódio, conhecimento e
reconhecimento. Porto Alegre: Artmed.
Zimerman, D. E. (2012). Etimologia de Termos Psicanalíticos. Porto Alegre:
Artmed.
Zimerman, D. E.;Coltro, A. C. M.; Bizzi, I. Z. (Orgs.). (2002). Aspectos
Psicológicos na Prática Jurídica. São Paulo: Millennium Editora.
Zimerman, D. E.; Osorio, L. C. (1997). Como trabalhamos com Grupos. Porto
Alegre: Artes Médicas.